Depois que mudei para cidade minha vida mudou, mas foi para pior”, afirmou Kualaru Francisca Karaja. Os traços do rosto, o cabelo e a dificuldade de falar português revelam a origem da mulher de 42 anos. Nascida e criada na Aldeia Indígena Mirindiba, na Ilha do Bananal, no estado do Tocantins, Kualaru conta que foi morar na cidade há dez anos, com o marido e os filhos, para tentarem um vida melhor. Porém, sete anos depois, o marido morreu atropelado por um caminhão na rodovia. E foi por esse motivo que ela, com a ajuda de um amigo, moveu uma ação para requerer a pensão por morte rural do marido. O acordo foi homologado pelo juiz Everton Pereira Santos, durante a realização do Mutirão Acelerar Previdenciário, na comarca de Nova Crixás. Além do benefício de um salário mínimo, no prazo máximo de 60 dias, Kualaru receberá R$ 4 mil de atrasados.
O maior sonho da índia é voltar para a aldeia, porém, por causa dos filhos, não sabe se poderá. “Eu tinha certeza que assim que conseguisse o benefício eu iria voltar, mas meus filhos não querem porque eles precisam estudar”, disse ela, que não gosta de morar na cidade porque “aqui a gente tem que comprar as coisas, lá eu pescava, colhia e plantava”.
Kualaru contou que essa foi a primeira vez que foi ao fórum. “Nunca tinha precisado, igual hospital. Até hoje só fui uma vez, para ver o meu marido, mas quando eu cheguei lá, ela já tinha morrido”, relatou. “Se não tivéssemos vindo para Bandeirante, ele não teria morrido. Mas era o que ele mais queria”.
Sobre as dificuldades que encontra na cidade, ela fala que a maior é falar o português correto, já que o dialeto que aprendeu foi o carajá. “A gente aprendia mais ou menos o português porque iam muitos turistas na aldeia, mas quando cheguei na cidade não entendia nada. Vocês falam muito rápido e bonito também”, afirmou.
Ao lembrar da vida da aldeia, Kualaru afirmou que se casou com um índio de outra aldeia. “Somos proibidas de casar com parentes próximos e até com os primos. Mas minha mãe queria que eu casasse com alguém da minha tribo para manter a união familiar. Mas mesmo sem ela querer, eu casei. E foi tão bonito !”, relembra. “Mas agora vou fazer de tudo para criar meus filhos e meu netinho, que está chegando, não vai ser do jeito que eu quero, na aldeia, mas daqui a alguns anos eu volto para lá”, completou.
Histórias
Entre as 800 pessoas que foram atendidas no fórum de Nova Crixás, nas quinta e sexta-feiras (6 e 7), durante a realização do Mutirão Previdenciário, estava seu Otávio Pereira Brito, de 66 anos, que percorreu quase 100 quilômetros para se aposentar. Ele foi ao fórum com um vizinho e com a “namorada” de 11 anos, dona Adelaide Aparecida Gomes Ferreira, de 51 anos. “Agora já posso pedir a Adelaide em casamento”, disse, ao ficar sabendo que conseguiu o benefício na audiência presidida pela juíza Marli Naves. O que parecia brincadeira era verdade e, ainda no fórum, na frente da juíza e de outras pessoas, o pedido foi feito. “A gente tem que casar mesmo, estamos juntos há 11 anos e nada foi oficial, mas ela vai ter que ir morar na fazenda comigo”, completou.
FONTE: TJGO |